Sinto-me realizado porque trabalho no que não gosto
Hoje, estive a tomar um café com uma amiga de longa data que não via há um ano.
Ela, juntamente com outro grande amigo são o que considero serem os meus dois irmãos adotivos. O meu irmão verdadeiro perdi-o jovem há mais de vinte anos. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de criar uma relação especial com eles.
Mas voltemos ao tema.
Estávamos a tomar um café enquanto fazíamos um resumo das nossas vidas no último ano. O tempo para por a conversa em dia era escasso porque ela tinha uma reunião marcada para dali a uma hora.
A crise económica deixa espaço para o voluntariado?
A minha amiga pediu uma licença sem vencimento no ano passado e esteve três meses em Timor como voluntária. Não foi a primeira vez que lá esteve. Já lá tinha estado logo após a independência e por outro par de vezes abdicando sempre das suas férias. Regressou no final do ano e eu ainda não tinha tido a oportunidade de a ver pessoalmente.
A determinada altura confidenciou-me que ainda em Timor, lhe tinha sido proposto ficar por mais seis meses, mas que não pôde aceitar, porque não iria conseguiria uma extensão da licença sem vencimento. Dei-lhe a minha opinião sincera, concordando com a sua atitude responsável de regressar, pondo de parte os seus ideais filantrópicos e preocupando-se mais consigo mesmo.
De facto o país atravessa hoje uma crise sem precedentes, que está a atingir duramente todas as faixas etárias com níveis de desemprego inconcebíveis.
Por um lado, são os jovens à procura do primeiro emprego os percentualmente mais afetados, por outro lado, são os dramas sociais de homens e mulheres de quarenta e cinquenta anos, com e sem instrução, que caíram no desemprego e que têm hoje muitas dúvidas da sua capacidade de regressar à vida ativa porque atingiram aquele limiar de idade onde são, velhos demais para os empregadores e novos demais para a reforma.
Por toda esta conjuntura, eu que tenho sido um aventureiro profissional, dei por mim a aconselhar-lhe prudência, algo que nunca fui capaz de me autoimpor. Talvez esteja finalmente a ganhar juízo, ou a ficar velho…
A realização profissional é um mito?
Depois de a deixar na reunião, fiquei a matutar neste assunto e a pensar se seria possível alguém dizer com franqueza que trabalha naquilo de que gosta e cheguei à conclusão que isso é impossível.
Pode haver e há pessoas que se aproximam deste ideal coletivo de amar o seu trabalho, mas sejamos francos, são poucos os casos.
Eu penso até que, trabalhar no que se gosta pode levar-nos a odiar aquilo de que gostamos.
Senão vejamos, imaginemos que o que mais gosto é de sexo, não é por esse facto que iria ponderar enveredar por uma carreira nessa área, porque provavelmente se o fizesse, ao fim de dois dias estava a querer mudar de ramo.
Conheço diversas pessoas que juram a pés juntos adorar o que fazem, médicos, enfermeiros, pessoal de laboratório. Lidei inclusivamente com tratadores de animais de um Jardim Zoológico, que facilmente conseguem convencer todos os outros que trabalham numa profissão romântica, sempre em contacto com a beleza dos animais e o divertimento de tentar adivinhar os seus comportamentos.
Mas para mim tudo isto não passa de um sentimento falso e de uma forma de as pessoas se autoconvencerem de que tomaram a opção correta no momento em que escolheram ou foram obrigados a escolher a sua profissão.
Claro que, se eu odeio lavar a loiça dificilmente poderei gostar de ser copeiro num restaurante. É evidente que há profissões que em função da nossa própria natureza gostamos mais ou menos. Eu por exemplo seria mais feliz a trabalhar à chuva e ao sol como carpinteiro naval seis dias por semana, do que a olhar para as desgraças alheias, atrás de um balcão como bancário. Mas isso não significa que os carpinteiros navais são pessoas mais felizes e realizadas que os bancários.
Faz parte da nossa essência um certo inconformismo com a nossa situação profissional, a insatisfação mostra que estamos vivos e dizer mal do chefe ou do patrão faz-nos bem ao ego e muitas das vezes fazemo-lo com toda a razão e propriedade.
Não quero passar a ideia, errada, de que nos devemos sujeitar a tudo em nome da estabilidade e da crise, mas é preciso saber distinguir as nossas próprias motivações quando ponderamos sair de um trabalho para outro, onde tudo nos parece ser um mar de rosas. Como diz o povo “mudas de moscas mas a m. é a mesma”.
As duas componentes relacionais do trabalho
Numa atividade profissional existem no mínimo duas componentes relacionais. Uma entre nós e a atividade propriamente dita e outra entre nós e as pessoas, com quem e para quem trabalhamos. Normalmente, a última, é a mais exigente em termos emocionais e a que habitualmente, nos faz odiar ou amar uma profissão.
Eu nutro uma enorme paixão pelo mar apesar de nunca ter tido contacto com ele no meu dia-a-dia profissional, por isso, magiquei sempre na minha cabeça uma série de possibilidades de trabalho nesta área, mas nunca avancei para tal, porque apesar do imenso gosto nunca tive qualificações para exercer nenhuma.
Esta manhã depois de deixar a minha amiga, dei comigo a pensar o que seria se o tivesse feito. Poderia ser o homem mais feliz do mundo ou um frustrado que odiaria o mar tão intensamente como o amo hoje.
E porquê? Porque mesmo trabalhando em algo de que gosto, iria ter que abdicar do meu tempo de lazer com a minha família, para estar a trabalhar com pessoas que poderiam ser fantásticas ou não.
O importante são as relações pessoais não o trabalho
E é aqui que tudo se resume. Por mais atractiva que possa ser a nossa atividade, no final de contas vai ser o facto de estarmos a trabalhar com pessoas interessantes ou horríveis que, nos vai transmitir, ou não, a sensação de realização profissional.
Eu posso ter como hobbie a pesca e adorar levantar-me de madrugada para ir pescar com os meus amigos, quando o tempo está de feição, mas como seria se fosse obrigado a sair da minha cama quente e a deixar a minha família, para embarcar num barco no pino do Inverno, com o mar grande, com o tempo instável, na companhia de estranhos de quem não gosto e com um cretino de um Mestre?
Caro amigo de mares distantes,
Nenhum de nós nasceu para “plantar milho” ano após ano. Intuímos ter várias outras vocações e talentos, uns evidentes, outros latentes e aqueles que ainda não emergiram do inconsciente de nossas vidas, mas forjam-se no devir próprio de cada um. Por isso, a lida é o fazer donde buscamos ser nós mesmos e, se questionarmos a possibilidade de ser que somos, a angústia – como um farol – servirá de referência quando navegarmos nas vagas tediosas da impessoalidade, na qual, de maneira imprópria, agimos como se nosso fosse aquilo que a todos pertence, mas que ao mesmo tempo não é de ninguém.
Mario Luis
gostei.